domingo, 18 de agosto de 2019

Black/White/Wine


As luzes estão desligadas. Estou deitada no sofá da sala de estar. Minhas pernas repousam sob o encosto, e minha nuca se molda à beirada do assento. Suspensos pela gravidade, meus cabelos negros se alongam sob o tapete e se entrelaçam com a escuridão onde me encontro. O silêncio perturbador faz ecoar a conversa fúnebre dos corvos e o bater torturador dos ponteiros do relógio. Já não tenho noção do tempo, mas mantenho meus olhos direcionados à ampla janela que se encontra logo à frente. As cortinas estão totalmente abertas, permitindo que a luz da quase cheia lua ilumine as cadeiras cristalinas, a mesa de vidro, o piso branco e gelado, que como tela de artista, arte se torna ao receber os respingos do meu vinho tinto, o remédio para minha insônia. Suspiro e sinto a expansão de meu peito pálido, que deixa escapar o hálito embriagado por entre lábios manchados de bordô. Ouço um carro se aproximando ao longo da rua. É notável o ruído dos pneus que se arrastam sob as pedras molhadas do pavimento em meio à mansidão túrbida. A luz dos faróis anuncia sua chegada em minha morada, e por alguns segundos, desenha sob as paredes a silhueta da moldura da janela, que se move de um canto ao outro e que vai embora junto ao carro, deixando-me só, mais uma vez afogada em escuridão. O espetáculo de luzes e contornos chega ao fim, e volto a observar a janela. O curto movimento de meus olhos faz verter uma lágrima, que cruza gentilmente minha sobrancelha e desliza pelo canto da testa. Enquanto a lágrima desfila, meu rosto permanece inerte, apático, aceitando e acolhendo a dor. A lua está quase terminando seu turno. Suspiro novamente. Fecho meus olhos. Boa noite, amanhecer.

Ilustração: Tomer Hanuka

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Brisa Mensageira


Como mensageira da lua, a brisa que invade a privacidade do meu quarto e bagunça a pilha de papéis já bagunçada sob minha estante, é a mesma que conquista meu foco, toma meus braços e me conduz à soleira da janela. Ela corteja e seduz folhas e galhos de árvores que habitam as ébrias ruas parisienses, molhadas pela volubilidade da chuva, pelo desperdício do vinho tinto, pelo fluxo secreto das lágrimas. A brisa me convida a contemplar o que se encontra ali fora e, antes que pudesse perceber, já estou imersa em águas de inquietude e tormenta aqui dentro. Ela acaricia meus cabelos, beija meus ouvidos e sussurra sua mensagem. Shhh... a lua somente escuta aqueles que permanecem em silêncio...

sábado, 10 de agosto de 2019

Fragrâncias e o ritmo natural das coisas


Sempre acreditei que os pequenos detalhes que nos cercam são aqueles que nos fazem genuinamente felizes, detalhes esses que nos passam despercebidos e que não somos devidamente estimulados a prestigiar. Prezo viver minha vida em uma velocidade que me permita perceber essas pequenas degustações de felicidade e abraçá-las como parte de minha rotina, e não meramente como um pequeno luxo enquanto estou sendo improdutiva - sinta um tom de desdém nessas últimas palavras.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Eu não te amo


Vamos começar de forma simples e clara: eu não te amo. Convenhamos, você não me ama também, e tá tudo bem. Tenha em mente que se algum dia eu te tratar bem, é só porque você é um ser que habita este planeta, portanto é digno de um bom tratamento. Tenha em mente que se algum dia eu te mandar uma mensagem no meio da noite, ou mesmo um "bom dia" na primeira hora da manhã, isso não significa que eu te ame. Não quero nada sério contigo, muito menos dizer que pertencemos um ao outro. Não te preocupe, não quero conhecer teus pais, nem uma aliança na mão esquerda, afinal minha mãe sempre diz que não suporto as pessoas por muito tempo, e acho que acabei comprando essa ideia. Portanto, se você acha que deve se afastar de mim porque "estou me apegando a você", oras, querido, não seja presunçoso, pois você não é o primeiro, e está longe de ser o último. Não vá criando essa imagem de que sou uma mulher frágil procurando por abrigo e proteção nos braços de outrem, aliás sei cuidar muito bem de mim mesma, e prezo minha independência e solitude. Lembre-se de que se você se sentir bem acolhido em minha companhia, ou receber um abraço inesperado, é porque sou afudê pra caralho. Gosto de tratar as pessoas com carinho e não vejo necessidade alguma em fazer esses "joguinhos de sedução" porque meu jogo é limpo e franco, e não aprendi a blefar. E se você estiver procurando alguém que te deixe na dúvida e te desdenhe, bem, então me esqueça, pois não te amo, mas só sei te tratar bem. Eu não te amo. Você não me ama também. Não diga que me ama, só me trate bem.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Anicca - Filosofia Budista


Bonjour! No post anterior - O que dizer sobre as palavras? - expliquei sobre o começo de um projeto que se desenrolará aqui no blog. Esse projeto consiste em refletir sobre uma lista de palavras de A-Z de forma subjetiva, trazendo o que elas significam para mim, e minhas experiências quanto às mesmas. A primeira palavra da lista é anicca, que é um conceito essencial na filosofia budista. Quem me recomendou essa palavra foi um amigo, e antes disso eu jamais ouvira falar dela, então foi muito interessante pesquisar sobre e mergulhar um pouquinho nessa filosofia que tanto admiro.

sábado, 27 de julho de 2019

O que dizer sobre as palavras?


Ao longo do dia me deparo com muitas palavras enquanto leio, escuto, falo, escrevo e penso. A vida é tão corrida e temos tantas prioridades, metas e expectativas a cumprir, que não nos damos o devido tempo para respirar e refletir sobre essas palavras que nos cercam e que, por vezes, nos moldam. Creio que alguns diriam "eu não tenho tempo para essas besteiras", e então eu me pergunto quanto ao significado de palavras simples como "eu", "tempo" e "besteira".

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Tá, mas por que você é vegetariana?


Porque sim. Ponto. E poderia simplesmente terminar a conversa por aqui, pois não tenho que justificar minhas decisões o tempo inteiro. Dizer "porque sim" é mais fácil quando estou conversando com pessoas que não querem entender meu ponto de vista, mas criticar e "me explicar" porque eu não deveria ser vegetariana. Creio que o mais importante em um diálogo sobre o consumo ou não de carnes é sempre ter em mente que, felizmente, cada indivíduo pode usufruir de sua livre vontade e viver a vida como melhor achar, seja ela com ou sem carne. Ou seja, quero deixar bem claro que esse post não tem o intuito de mudar sua opinião quanto ao churrasquinho de Domingo, e sim mostrar minha trajetória rumo ao vegetarianismo e os motivos que me levaram a deixar de comer carne gradualmente.
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