sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Anicca - Filosofia Budista


Bonjour! No post anterior - O que dizer sobre as palavras? - expliquei sobre o começo de um projeto que se desenrolará aqui no blog. Esse projeto consiste em refletir sobre uma lista de palavras de A-Z de forma subjetiva, trazendo o que elas significam para mim, e minhas experiências quanto às mesmas. A primeira palavra da lista é anicca, que é um conceito essencial na filosofia budista. Quem me recomendou essa palavra foi um amigo, e antes disso eu jamais ouvira falar dela, então foi muito interessante pesquisar sobre e mergulhar um pouquinho nessa filosofia que tanto admiro.

E o que é anicca? No budismo, fala-se sobre as 03 marcas da existência: anicca (impermanência), dukkha ("sofrimento") e anatta (não-eu). Todos os fenômenos carregam essas três marcas, o tempo, as plantas, os objetos que nos cercam, relacionamentos, pensamentos e sentimentos, qualquer detalhe que exista, inclusive nós mesmos.

Anicca, traduzido como impermanência, é um conceito que nos parece óbvio no quesito intelectual, pois todos sabemos que nada é imutável; que tudo está constantemente mudando a cada milésimo de segundo. Contudo, optamos por viver uma vida ignorando esse fato, achando que temos o direito de vivermos uma vida sempre estável e garantida. Contudo, sabemos que nada é garantido, que tudo pode mudar, mas preferimos viver nessa ilusão, e quando nos deparamos com mudanças, ficamos chocados como se nunca soubéramos da possibilidade daquela mudança. Então, nos conscientizamos de que as coisas não são mais as mesmas e sentimos dukkha, que seria pobremente traduzida como "sofrimento" ou, como prefiro dizer, desconforto trazido por anicca.

Quando compreendi o conceito de anicca, consegui enxergar o motivo que me leva a viver a vida que levo: mudando e migrando, na busca de novas experiências ininterruptamente. Quem bem me conhece, sabe que tenho problemas com rotina e que estou sempre "inventando algo novo", e muitas vezes essas pessoas acham que mudo constantemente pois ainda não descobri o que quero fazer em minha vida e o caminho que quero levar, mas eles ainda não entenderam que é assim mesmo que quero construir minha trajetória, e que a mudança se tornou uma necessidade na minha vida. Tudo isso por causa de anicca; porque as coisas mudam, e principalmente o modo como vejo o que me cerca; o meu relacionamento para com o que me cerca.

Imagino-me carregando um novelo de lã com uma mão, e com a outra, pego a pontinha da linha que inicia esse novelo, que inicia em idealização, excitamento, tesão quanto a novos recomeços, aquele brilho no olhar e um nervosismo gostoso que não me deixa pregar os olhos logo que deito na cama à noite. Essa linha vai se desenrolando até a outra extremidade, passando por mudanças que apagam o sorriso que tinha no rosto inicialmente. E o que me fazia saltar da cama cantarolando, agora não se passa de mais uma rotina, um compromisso sem graça, um peso nas costas. E na esperança de me sentir viva novamente, vou em busca de algo inesperado que vire meu mundo de cabeça para baixo, que me dê uma rasteira e me jogue de pernas pro ar.

Eu mudo por causa de anicca. Eu mudo por causa da impermanência. Eu sou impermanente por causa da impermanência, e tenho prazer em viver assim. A mudança é necessária na vida de qualquer indivíduo, mas muitas vezes ignoramos que dela precisamos, e mergulhados em ilusão vamos "empurrando com a barriga" vários aspectos da vida: relacionamentos, trabalho, estudos, hábitos. E quando já não somos mais capazes de suportar as coisas como são, catástrofes acontecem, e só então vemos que a mudança é vital para prosseguirmos.

Fico a me questionar porque as pessoas hesitam tanto em mudar e reinventar. Ainda carregamos alguns dos antigos ensinamentos de gerações passadas, em que a chave para o sucesso é a estabilidade, e quando algo acontece e interrompe essa frequência estável e garantida, culpamos os outros ou a nós mesmos e enxergamos tais mudanças como falha, e associamos a falha a uma total falta de sucesso e motivo de vergonha.

Como disse anteriormente, entendemos anicca a nível intelectual; sabemos que nada é imutável, porém compreender, internalizar, absorver esse conceito e trazê-lo para nosso dia-a-dia é a verdadeira chave para o sucesso. Não tomar as coisas como garantidas e receber as mudanças de braços abertos é sinal de uma mente saudável e tranquila. Viver uma vida internalizando o real significado de anicca não é algo fácil, e atingir esse nível mental não se faz da noite para o dia, porém nunca é tarde para começarmos a refletir sobre as mudanças que nos cercam e nos constituem.

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