domingo, 8 de setembro de 2019

Jamais estou sozinha


Visto meu casaco, arrumo minha franja pelo reflexo da janela da cozinha, pego as chaves de casa e parto de meu apartamento. Enquanto me aproximo do portão principal, noto a ausência dos raios solares, que se despedem e se transformam em mais um adorável crepúsculo. As cores de Outono que fecham o Verão me avisam que ao final de cada dia damos um passo em direção à escuridão, logo é chegada a hora de me preparar para não ser apanhada por entre sombras - minhas sombras.

Estou andando pela rua, contudo sei que jamais estou sozinha. Peço proteção aos ventos e rumo em harmonia a meu destino. Sei que nunca estou desacompanhada, porém, excepcionalmente, noto uma presença indesejada que me segue pelas quadras e perturba minha paz. Olho para trás e me deparo com um homem, que me encara e me suga com os olhos sedentos, que procuram satisfação em licores amaldiçoados. Ele acha que não estou preparada. Acreditou que eu fosse donzela indefesa, mas não esperava que eu fosse prole daquelas que não foram queimadas. Entro em uma farmácia qualquer com a falsa esperança de despistá-lo, pois já contava com a ideia de que ele me seguiria onde quer que eu fosse.

Por entre prateleiras, observo seu movimento, sua energia, sua intenção. Estávamos nós dois em uma farmácia, mas sabia que não era cura que ele buscava. Ele analisa meu corpo. Ele espera minha fraqueza. Ele procura em mim, sua presa, porém sempre fui eu a caçadora. Saio de trás das estantes, e ainda que distantes, estamos frente à frente, e com minha feição dura e impenetrável, posiciono-me firme como as rochas e deixo que meus olhos negros lhe entreguem o recado. Ah, ele não contava com minha bravura, e internalizando o recado, parte do local em busca de seu enganoso deleite. Tento entender toda essa situação e, depois de alguns minutos, deixo a farmácia ainda rastreando sua possível presença. Estaria ele escondido? Estaria ele me testando? Caminho algumas quadras em direção à minha casa, procurando possíveis armadilhas e contra-ataques, mas já não preciso mais me preocupar.

Não sei se estou enfurecida, desgostosa, enfraquecida, empoderada, ou mesmo tudo isso simultaneamente. Ainda falta duas quadras e alguns questionamentos internos até chegar à segurança de meu lar, e eis que Cernunnus me manda um presente: os primeiros gotejos gentis da delicada chuva que está por vir. Eu estava a marchar em passos frenéticos, até que decidi desacelerar. Sempre acreditei que jamais estivesse sozinha, e confirmando minha crença, voltamos juntos para casa, o vento fresco, a chuva, o aroma de terra regada e eu. Desde criança acredito que a chuva vem para lavar meu pranto e escorrer minhas dores para além de onde minha vista consegue alcançar.

Antes que pudesse perceber, estou em frente a meu prédio. Atravesso o portão principal e me sinto segura mais uma vez. Encontro-me estática em meio ao pátio, ainda em contato com ar livre e sua magnificência. Abro as palmas de minhas mãos, ergo meu rosto em direção aos cinzas do céu, fecho meus olhos, preencho meus pulmões com o puro e o fresco. Estou entregue às delícias da natureza e recebo a chuva. Recebo a água. Agora sou águas. Abro meus olhos e me comunico com névoa, silêncio, reclusão, pombos e corvos. Conecto-me com o vento, que faz acrobacias por entre folhas e galhos. Recebo notícias da esperançosa chama que jamais se apaga dentro de mim, e que acredita que o mundo ainda pertencerá aos bons.

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